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SÍNDROME DE GUILLAIN-BARRÉ

É um nome difícil de uma doença bastante rara, que ganhou fama recente por se tratar de complicação conhecida de algumas infecções, tais como a infecção pelo “Zica vírus”.

Mas o que é mesmo essa doença?

A Síndrome de Guillain-Barré é uma doença neurológica, classificada como uma polineuropatia desmielinizante inflamatória aguda. Trocando em miúdios...

  • polineuropatia = envolvimento de vários nervos;
  • desmielinizante = característica de acometer a bainha de mielina, uma camada que reveste o nervo e é responsável pela condução rápida e eficaz do impulso nervoso;
  • inflamatória = causada por um processo inflamatório (diferente de degenerativo, que se refere a “desgaste”); e
  • aguda = início rápido dos sintomas.

As células do nosso sistema nervoso são os neurônios. Eles são divididos em várias partes, e o estímulo nervoso é conduzido como uma “descarga elétrica” através dele. A maior parte do neurônio é conhecida como axônio. Nessa parte também é encontrada a bainha de mielina, que auxilia na transmissão do estímulo.

Quando a bainha de mielina é destruída, como ocorre na Síndrome de Guillain- Barre, a transmissão do impulso nervoso fica prejudicada e surgem os sintomas.

Quais são as causas?

Na maior parte dos casos o que ocorre é a produção de anticorpos que provocam a lesão na bainha de mielina. Isso acontece geralmente após algum tipo de infecção, que costuma preceder o início da neuropatia em 1 a 3 semanas. As infecções que comumente precedem a Síndrome de Guillain Barré são: gastroenterites, viroses respiratórias e gastrointestinais, infecções por herpes vírus, citomegalovírus, HIV, vírus Epstein-Barr e espiroqueta (doença de Lyme). Mais recentemente, novos agentes infecciosos, como o Zica vírus, ganharam notoriedade por aumentar muito a frequência dessa complicação.

 

Além das infecções, outras condições podem funcionar como “gatilho” para desencadear a doença, tais como cirurgias, vacinas, neoplasias e outras doenças auto-imunes, como o Lupus Eritematoso Sistêmico.

E quais são os sintomas, e como podemos descobrir a doença?

Os sintomas geralmente começam de forma pouco específica, alguns dias após o evento que “engatilhou” a doença (por isso muitas vezes o atraso no diagnóstico).

 

Inicialmente surgem dormências e formigamentos no corpo (que podem acometer braços e pernas) e posteriormente vem a perda de força muscular. Essa fraqueza geralmente começa nos braços e pernas dos dois lados do corpo, e passam em alguns dias a acometer a musculatura do tronco. A fraqueza muscular atinge seu máximo dentro das primeiras duas semanas, e existe o risco de envolvimento da musculatura diafragmática, responsável pela respiração. Nesse momento cerca de 20 a 30% dos pacientes podem precisar respirar com ajuda de aparelhos.

Os nervos do Sistema Nervos Autonômico, responsável pela manutenção dos sinais vitais, podem ser acometidos, causando aumentos ou quedas bruscas de pressão arterial ou pulso, sudorese excessiva, constipação, retenção urinária, taquicardia ou bradicardia. Esse também é um tipo de acometimento que pode levar a risco de vida.

Para que o diagnóstico seja feito rapidamente é fundamental suspeitar da doença logo nos primeiros sintomas. Alguns exames de sangue podem ser solicitados, porém não há exame específico que sele o diagnóstico com certeza. Muitas vezes é necessário fazer uma punção lombar (injeção nas costas para retirada de uma amostra de líquor, o líquido presente na medula espinhal), já que algumas alterações são muito sugestivas da doença.

E qual é o tratamento? Ele tem que ser feito no hospital?

Em função da potencial piora muito rápida dos sintomas, e de manifestações clínicas potencialmente fatais, é recomendado que todo paciente com suspeita de Síndrome de Guillain-Barré seja hospitalizado.

Além das medidas habituais de cuidados com pacientes acamados, se for o caso, existem dois tipos de tratamento para a doença. Um é a plasmaférese, um procedimento em que parte do sague do corpo é “filtrada” para retirar os anticorpos que estão causando a doença. Quanto mais cedo na evolução dos sintomas for feita a plasmaférese, maiores as chances de recuperação. O outro é o uso de imunoglobulina intravenosa, um derivado do sangue humano que é capaz de neutralizar os anticorpos nocivos. Essa opção tem sido considerada o tratamento mais eficaz, já que apresentam resultados muito semelhantes nos estudos clínicos (quando não superiores), tem menos efeitos colaterais, e pode ser feita com mais facilidade, já que a plasmaférese requer aparelho e equipe especializada.

E a doença tem cura?

Sim, mais de 90% dos pacientes apresentam recuperação total dos sintomas após o tratamento. Uma pequena parcela dos doentes pode apresentar um curso mais arrastado, com duração de sintomas por mais de um ano. A mortalidade é muito variável, e depende muito do diagnóstico precoce e das condições de assistência em terapia intensiva em que o paciente é tratado. Durante todo o curso da doença, o tratamento fisioterápico concomitante é fundamental para agilizar a recuperação e prevenir sequelas.